JESUS E A QUESTÃO DE GÊNERO
*Arleide Auxiliadora de Lima Melo
INTRODUÇÃO
Uma forma de
buscar critérios para redefinição de nossa identidade é reler a Bíblia a partir
do acontecimento e da pessoa de Jesus Cristo, que se tornou para nós a grande
chave de interpretação da Bíblia e da própria vida. Reler a Bíblia sempre com
novas perguntas, entre elas a pergunta sobre Jesus e o gênero, um exercício que
sempre traz surpresas e boas novas. No Antigo Testamento
encontramos muitas mulheres exercendo forte liderança. Elas envolviam-se com a
defesa, permanência e a formação da consciência do povo hebreu. As mulheres
estão presentes onde a vida está fragilizada e ameaçada. O riso de Sara, no
livro do Gênesis nos revela sua participação na constituição do povo ao gerar
um filho. Os cânticos de Miriam, Débora e Ana revelam a alegria da mulher,
fazendo sua parte na história da salvação. Rute é o exemplo de solidariedade da
mulher oprimida. As parteiras no Egito, com coragem e astúcia tramam um novo
projeto de sociedade. Nesta nova sociedade a vida deve ser defendida e
preservada. Jael e Judite são exemplos de firmeza na luta de resistência. Ester
com determinação expõe a própria vida pela salvação de seu povo. A mãe dos
Macabeus dá testemunho de fé e foi fiel ao Projeto de Javé. Outras grandes
profetizas como Débora e Hulda não podemos esquecer. A tradição de fé em Israel
tem marcas da atuação feminina. Lá onde a capacidade de resistência do povo
parecia se esgotar, sempre aparece uma mulher forte.
O Novo Testamento, não é diferente do
Antigo Testamento, quanto à participação feminina na caminhada do Povo de Deus.
Encontramos Maria a mãe de Jesus e as outras mulheres, Jesus inaugura uma
experiência do Reino que recupera as pessoas, restituindo-lhe sua integridade e
sua dignidade. Por atitudes, Jesus estabelece novas características à
comunidade, igualdade e participação de homens e mulheres juntos, pois o amor
de Deus é para ambos. Jesus se posicionou contrário a opressão e a
marginalização da mulher bem como dos outros excluídos (cegos, mudos, leprosos,
pecadoras públicas, coxos, paralíticos).
1 - JESUS E AS
MULHERES
Ele
não apenas convive, mas acolhe e promove os desprezados pela religião e pelo
governo. Jesus oferece um lugar na convivência humana, acolhe como irmã e irmão
aos que eram rotulados e relegados:
·
Imorais: prostitutas e
pecadoras (Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50)
·
Hereges: pagãos e samaritanos
(Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30)
·
Marginalizados: mulheres, crianças e
doentes (Mc 1,32; Mt 8,17; 19,13-15).
·
Colaboradores: publicanos e
soldados (Lc 18,9-14; 19,1-10)
·
Pobres: o povo da terra e
os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc 6,20-24).
Olhando o Evangelho encontramos muitos textos expressivos que falam da
mulher. Na atividade evangelizadora de Jesus a mulher adquire outro patamar,
muito diferente do Judaísmo e do Império Romano. Para Jesus a mulher ganha o
seu devido valor e toma seu lugar na sociedade. Dois textos nos ajudarão a ver
como Jesus recebe a mulher do seu tempo e tenta salvá-la: o caso da mulher pecadora
e da viúva:
1.1 A Mulher Pecadora – A gratidão demonstra o perdão (Lc 7,36-50)
O texto de Lucas Lc 7,36-50, a mulher
pecadora, mostra a atitude de Jesus em relação às mulheres de seu tempo. A
mulher pecadora é recebida por Jesus que de maneira humilde suplica e confia na
misericórdia de Cristo. Aqui se confirma a fidelidade do serviço, visto a
mulher passar à frente do anfitrião (um fariseu) omisso ou que pretensiosamente
esqueceu os gestos orientais de boas vindas e cumpre, no lugar dele, os ritos de
hospitalidade. No seu gesto de molhar os pés de Jesus com as lágrimas, secar
com os cabelos, cobri-los de beijos e os ungir com o perfume, os presentes,
vêem a pecadora (certamente uma prostituta bem conhecida) praticar atos de
arrependimento. Mas, dá testemunho, de Jesus, com esse seu gesto de maneira
profética. Anuncia a Morte e Ressurreição.
A narrativa nos lembram os
últimos momentos de Jesus. A dor estampada em suas lágrimas; os cuidados do
corpo nos cabelos que enxugam e o envolvem como num sudário; os beijos com que
o cobre prefigura as mulheres que na ressurreição, lançar-se-ão aos pés de
Jesus; a unção do perfume evocando tanto o rito fúnebre de sepultamento, quanto
a difusão das boas novas, propagado através do mundo. Em contrapartida, a cena
mostra que o fariseu somente o convida a comer com ele. Mas, a presença de Jesus
não altera o seu modo de ser pouco observa em Jesus; recebe-o mal, da boca para fora. A pecadora se
distingue pela capacidade de comunicação, mesmo sem ser convidada: lágrimas, cabelos,
perfume, beijos. O fariseu é mesquinhez e isolamento. A mulher é o espírito do
mundo reconciliado, a fé num Deus de amor.
1.2 A Misericórdia de Jesus com as Mulheres
Conforme os evangelhos podem constatar
a atitude sempre amistosa de Jesus para com todos, especialmente à Mulher.
Muitos outros exemplos nos evangelhos mostram o respeito, a consideração e a
misericórdia de Jesus para com as mulheres. Elas foram os primeiros não judeus
se tornarem membros do Movimento de Jesus. Foram responsáveis pela extensão
deste movimento a não israelitas. O texto mostra que para Jesus as mulheres
eram as suas seguidoras, como o eram os homens para o Reinado de Deus,
anunciado por Jesus, todos são convidados, as mulheres e os homens, as
prostitutas, os samaritanos e os piedosos fariseus. Ninguém é excluído. A
mulher tem a mesma dignidade, categoria e direitos que o homem. Pela
participação da mulher no seu grupo Jesus rejeita as leis e costumes
discriminatórios que menosprezam essa dignidade, categoria e direitos e,
arrisca o seu prestígio e a sua vida em favor da mulher. Esta atitude de Jesus
gera uma nova comunidade sobre um novo mandamento a igualdade, a participação
de mulheres e homens juntos, pois Deus ama a todos igualmente. Jesus afirma:
“Muitos que agora são os primeiros, serão os últimos, e muitos que agora são os
últimos, serão os primeiros” (Mc 10,31; Mt 19,30; 20,16), aplica-se também às
mulheres e à sua situação de inferioridade nas estruturas dominadas pelos
homens, nas estruturas da sociedade patriarcal.Fazendo a proclamação do Reino
para os pobres e fracos, Jesus queria abranger as pobres mulheres judias, e
todas as outras, proclamando os direitos dos pobres e a justiça de Deus. Ele
acaba com as exigências da família patriarcal e constitui uma nova comunidade
familiar, comunidade que não inclui os “pais” enquanto se conservassem na
estrutura de uma sociedade patriarcal. Na família cristã, marido e mulher, pais
e mães, filhos e filhas, irmãos e irmãs são essencialmente filhos de Deus,
irmãos em Cristo, próximos. Essa promoção das mulheres é um aspecto particular
do Evangelho no que tem de mais essencial: As Boas Novas anunciada aos pobres,
libertados com prioridade, por Jesus. Quando Jesus “salva” uma mulher, muitas
vezes assim o faz como desafio lançado à grupo dirigente. A inocência que
defende, com o apoio do milagre, contesta a legitimidade dos poderes
estabelecidos, protesta contra o arbitrário das reprovações coletivas.
1.3 A Viúva de Naim – Lc 7,11-17
Na porta de entrada da cidade de Naim
encontra-se um grupo de pessoas que vão enterrar um defunto. “A descrição do
episódio é rápida era filho único, e sua mãe era viúva” (7,12). Jesus olhando a
cena fica movido de compaixão. A mulher viúva segundo o Antigo Testamento
situava-se em um dos três estados de carência total. Somente uma mulher,
talvez, poderia carregar este peso de dor e solidão. A viúva do relato era
Judia e mulher, sua vida era a família e a família agora com a perda de seu
filho desaparece. O filho da viúva se foi. Esta imagem da viúva destituída de
filho é o arquétipo do infortúnio levado ao extremo. Diante desta imagem do
nada Jesus comove-se até as entranhas, conforme diz o texto. Em meio a tanta
gente, Jesus apenas enxerga à solidão a mãe. Entre todas as mulheres que
encontrou, esta é a mais distanciada da esperança, da fé e da oração. E Jesus
comove-se, com aquela piedade que a Cananéia implorava em vão. Ela precisava da
fé e Jesus dá a ordem “Não chores!” E entregou o filho que se levantou à sua
mãe, e de novo, de fato mãe, e com este filho ao qual lhe é entregue uma
infinidade de bens que são a paz, o futuro, o amor, o relacionamento, a
dignidade do ser, sua perseverança e o sentido da vida. A mãe ressuscita com o filho.
A mulher é apenas citada, mas permanece o pivô do relato, sóbrio combate em que
a fé viva supera a incredulidade do luto. Vimos o relato de duas figuras de
mulheres, emblemáticas do desespero humano. Uma, rejeitada pela lei dos homens
a mulher pecadora, Lc 7,36-50; a segunda, pela perda do marido e do filho, a
viúva de Naim .Estas mulheres não agem por si mesmas. O Evangelho apresenta-as
em sua solidão tormentosa, mas o tríplice destino da condenação, da enfermidade
e da morte inflama a misericórdia de Cristo. No Novo Testamento encontramos muitos
outros textos que ilustram Jesus em relação às mulheres.
·
A Mulher Encurvada – Lc 13,10-17:
·
A Mulher Sírio - Fenícia – Mc 7,24-30; Mt 15,21-28 :
·
A filha de Jairo e a A Mulher Hemorroíssa – Mt 9,18-26; Lc 8,40-56; Mc
5,21-43.
2 - MINISTÉRIOS DAS MULHERES
Jesus criou um movimento novo, rompeu
uma série de preconceitos culturais e entre suas inovações está o discipulado
feminino. No seu discipulado, eram admitidas mulheres, em igualdade de
condições com os homens. Jesus convive com elas, conversa, quer em particular,
quer em público, procura escutá-las. Elas participam ativamente e são
beneficiadas com milagres e curas. Quebra os preconceitos da impureza, deixa-se
tocar pela hemorroíssa. Ele mesmo toca o cadáver da filha de Jairo conforme (Mc
5,25-43). Jesus não se esquiva de ser tachado de imoral e escandaloso, pelos
fariseus, enquanto desafia os preceitos legais e entra em casa de mulheres
sozinhas, como a de Marta e Maria (Lc 10,38-42). Outra prática inconcebível
para um rabino da época seria ter um grupo de mulheres que abandonassem seus
lares para segui-lo, viajando com Ele (Lc 8,1-3). Mas, a atitude de Jesus, com
relação às mulheres é em muitos sentidos inovadora, até mesmo revolucionária. Para
ser discípulo de Jesus precisava: chamado, seguimento, serviço, visão, escuta e
missão. As mulheres preenchem esses requisitos e se inserem nessa missão, desde
a Galiléia até Jerusalém (Mc 15,40-41).Quando Jesus foi preso e condenado, os
discípulos fogem. As mulheres arriscaram suas próprias vidas, permaneceram ao
pé da cruz, foram ao sepulcro, creram e difundiram a ressurreição. Elas
participam, portanto, de todos os fatos e acontecimentos. Jesus chama as
mulheres: no caso do seu discipulado, há um chamado por parte dele, isto é, o
mestre toma a iniciativa, costume diferente de outros filósofos e rabinos.
Jesus rompe as discriminações e chama os “impuros”, como o publicano Levi,
zelotes, como Simeão e mulheres como Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé.
As mulheres com gratuidade e prontidão dão resposta e tem presença marcante no
discipulado de Jesus. As mulheres seguiam e serviam Jesus, conforme Mc 15,41. O
mesmo Evangelista em 14,3-9 diz que uma mulher anônima unge a cabeça de Jesus
com perfume de nardo puro (óleo perfumado, muito caro por causa de sua
escassez). Essa era uma prática típica dos profetas, quando ungiam os reis:
sinal de que as discípulas perceberam, na convivência com Jesus, o seu messianismo.
Essa mulher é Maria Madalena que foi a primeira a ser enviada para anunciar a
Ressurreição, foi a primeira a ser “ordenada” para o serviço da evangelização.
Portanto houve mulheres discípulas e apóstolas que exerceram seus ministérios. Maria
Madalena se destacou entre os homens e mulheres que seguiam Jesus rompendo
preconceitos superaram barreiras para chegar até Jesus ungindo-lhe os pés.
Assim, Jesus aprova esse gesto de amor e confirma “em verdade vos digo que,
onde quer que venha a ser proclamado o evangelho, a todo mundo, também o que
ela fez será contado em sua memória” (Mc 14,9). Ela que padeceu aos pés da
Cruz, foi compensada com a Boa Nova da Ressurreição e a anunciou aos onze e a
todos os outros (Lc 24,9). Marta e Maria foram amigas e discípulas de Jesus,
cada uma ao seu modo. Maria é elogiada pelo próprio Cristo dizendo: “ela
escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10,42), isto é, porque
ficou sentada aos pés do Senhor escutando-lhe a Palavra (Lc 10,39). Era assim
que um rabino formava os seus discípulos, sentados aos seus pés, escutando sua
palavra. Aqui Jesus aplica essa prática a uma discípula mulher. Marta, sua
irmã, não fica para trás em termos de discipulado. Na morte de Lázaro, ao
chegar Jesus, ela corre ao seu encontro e confessa a sua fé e aguarda a atitude
de Jesus. O milagre consumado ela sai proclamando para todos. Foi considerada diaconisa.
Marta e Maria representam a acolhida da mulher para com os seus hóspedes onde o
próprio Jesus era recebido com alegria e amizade após suas peregrinações e
exaustivas pregações.
3 - A MULHER MARIA DE
NAZARÉ
Quando falamos da mulher, sob o ponto de vista
bíblico, temos que falar em Maria a mulher Maria de Nazaré. Ela viveu num tempo
e num espaço, num contexto determinado, inserida em estruturas familiares,
sociais, econômicas, políticas e religiosas. Maria é apresentada como modelo
para a mulher cristã. Vive na passagem do Antigo e o Novo Testamento,
experimenta o que quer dizer ser mulher no judaísmo patriarcal, ao mesmo tempo
em que participa e saboreia o gosto da Boa Nova trazida por Jesus. Ela toca na
vivência a nova experiência comunitária libertadora que seu Filho inaugura,
tratando as mulheres como iguais e integrando-as no projeto salvador do Reino
de Deus. Sem deixar de viver, portanto, toda a imensa riqueza do Judaísmo e da
reflexão de fé de seu povo, Maria é portadora, de uma nova esperança e um novo
modo de ser mulher. Maria é para a mulher uma nova perspectiva de crer, de
falar, de esperança e caminhos. Ela não é apresentada como estilo de mulher
alienada, passiva e submissa, mas alguém que foi plenamente mulher de seu
tempo, integrada na esperança e na luta de seu povo, participando com o melhor
de sua força no projeto histórico do Reino de Deus. Deus criou homem e mulher
para a igualdade entre eles. Na pessoa de Maria de Nazaré, Deus fez a plenitude
de suas maravilhas. É na carne e na pessoa de uma mulher que a humanidade pode
ver, então, sua vocação e seu destino levados a bom termo, a criação chegada à
sua meta. Maria com seu SIM a Deus, disse NÃO a tudo que se opunha ao plano de
Deus, deixando assim, às mulheres um exemplo de luta para essa igualdade da
criação. Em Maria, as mulheres encontram um reforço e uma ajuda na sua
caminhada e na sua dura luta em direção à igualdade e à libertação.
4 - A MULHER NA ÉPOCA DE JESUS E HOJE
A participação da mulher na sociedade
vem sofrendo profundas transformações. A mulher está mais consciente, busca
igualdade sem perder o que é próprio seu. Hoje, mais do que nunca, a mulher vai
à luta, está se encontrando como agente social, não é mais anônima, dá opinião
e age com segurança frente as mais diversas situações. Acredita no que faz se
sente importante. Não age por que alguém está cobrando ou por modismo. Na luta
pela igualdade a mulher deve conhecer seus limites, pois não basta ser somente
igual em seus direitos ou deveres, não basta mudar a linguagem, é preciso mudar,
transformar as relações, as atitudes, a consciência, a mentalidade. A
participação da mulher na sociedade não deve ser encarada como complemento na
vida. É preciso ter equilíbrio entre o espaço “público” (trabalho) e o espaço
“privado” (o lar, a família). Hoje é comum, moderno, o uso da linguagem
integradora, porém, isso não é sinônimo de transformação, pois na realidade, no
dia a dia a mulher se depara com os gestos e atitudes opressivas, patriarcais,
excludentes.
4.1 Discípulas que
permaneceram com Jesus ao pé da Cruz
.Jesus interfere na ordem da sociedade
patriarcal, desperta a potencialidade da mulher, a chama para serem também suas
discípulas e isto aconteceu. Jesus tem outra visão sobre a mulher do seu tempo.
Ele altera o relacionamento homem - mulher. Numa sociedade que dava privilégios
ao homem Ele procura tirar estes privilégios. Um exemplo podemos citar em Mt
19,7-12, que trata a questão do divórcio.Jesus apresenta outra atitude em
relação ao Homem e Mulher, para ele deve existir igualdade entre ambos, nem
mais e nem menos.Nos evangelhos encontramos muitas mulheres que seguiam Jesus
desde a Galiléia, e tornaram-se suas discípulas (Mc 15,41; Lc 8,1-13; Lc
8,43-49).Para Jesus não havia distinção no revelar os seus segredos, ele falava
tanto para os homens e mulheres que o seguiam e aceitavam a sua proposta.
4.2 A situação da Mulher no judaísmo no Tempo de Jesus
O Judaísmo segundo
suas tradições encara a mulher de uma forma bem diferente do homem. A
constituição familiar no Judaísmo foi sempre patriarcal. Tudo girava em torno
das decisões masculinas e ao homem se voltava. A religião judaica tem como rito
de iniciação à circuncisão. As mulheres freqüentemente foram silenciadas,
controladas, diminuídas e tratadas como subumanas nas mais diversas sociedades
humanas. Todavia, houve um homem que lutou sozinho contra o império do
preconceito. Ele foi incompreendido, rejeitado, excluído, mas não desistiu das
suas idéias. Ninguém apostou tanto nas mulheres como ele. Fez das prostitutas
rainhas, e das desprezadas, princesas. Muitos dizem que ele é o homem mais
famoso da história, mas poucos sabem que foi ele quem mais defendeu as
mulheres. Seu nome é Jesus Cristo, o Mestre dos Mestres na arte de viver. Esse
texto não fala de uma religião, mas da filosofia e da psicologia do homem mais
complexo e ousado de que se teve noticia. Nos tempos de Jesus os homens
adúlteros não sofriam punição severa. Todavia, a mulher adultera era arrastada
em praça pública, suas vestes rasgadas e, com os seios à mostra, eram
apedrejadas sem piedade. Enquanto sangravam e agonizavam, pediam compaixão, mas
ninguém as ouvia. A cena, inesquecível, ficava gravada na mente e perturbava a
alma para sempre. Certa vez, uma mulher foi pega em adultério. Arrancaram-na da
cama e a arrastaram centenas de metros até o lugar em que Jesus se encontrava.
A mulher gritava “Piedade! Compaixão!”, enquanto era arrastada; suas vestes iam
sendo rasgadas e sua pele sangrava esfolando-se na terra. Jesus estava dando
uma aula tranqüila na frente do templo. Havia uma multidão ouvindo-o
atentamente. Ele lhes ensinava que cada ser humano tem um inestimável valor,
que a arte da tolerância é à força dos fortes, que a capacidade de perdoar está
diretamente relacionada à maturidade das pessoas. Suas idéias revolucionavam o
pensamento humano, por isso começou a ter muitos inimigos. Na época, os judeus
constituíam um povo fascinante, mas havia um pequeno grupo de radicais que
passou a odiar as idéias do Mestre. Quando trouxeram a mulher adultera até ele,
a intenção era apedrejá-lo juntamente com ela.
Ao chegarem com a mulher diante dele, a multidão ficou perplexa. Destilando ódio, comentaram que ela fora pega em flagrante adultério e perguntou qual era a sentença dele. Se dissesse “Que seja apedrejada”, ele livraria a sua pele, mas destruiria seu projeto transcendental, seu discurso e principalmente seu amor pelo ser humano, em especial pelas mulheres. Se dissesse “Não a matem!”, ele e a mulher seriam imediatamente apedrejados, pois estaria indo contra a tradição daqueles radicais. Se os fariseus tivessem feito a mesma pergunta aos discípulos de Jesus, estes provavelmente teriam dito para matá-la. Assim se livrariam do risco de morrer. Qual foi a primeira resposta do Mestre diante desse grave incidente? “Quem não tem pecado atire a primeira pedra!”, foi à segunda resposta. A primeira foi não dá resposta, foi o silencio. Só o silencio pode conter a sabedoria quando a vida está em risco. Nos primeiros 30 segundos de tensão cometemos os maiores erros de nossas vidas, ferimos quem mais amamos. Por isso, o silencio é a oração dos sábios. Para o Mestre dos Mestres, aquela mulher, ainda que desconhecida, pobre, esfolada, rejeitada publicamente e adultera, era mais importante do que todo o ouro do mundo, tão valiosa como a mais pura das mulheres. Era uma jóia raríssima, que tinha sonhos, expectativas, lágrimas, golpes de ousadia, recuos, de ousadia enfim, uma historia fascinante, tão importante como a de qualquer mulher. Valia a pena correr riscos para resgatá-la. Para o Mestre dos Mestres não havia um padrão para classificar as mulheres. Todas eram igualmente belas, não importando a anatomia do seu corpo, não importando nem mesmo se erravam muito ou pouco. Jesus precisava mudar a mente dos acusadores, mas nunca ninguém conseguiu mudar a mente de linchadores. Queriam vê sangue. Ao optar pelo silencio, Jesus optou por pensar antes de reagir. Ele escrevia na areia, porque escrevia no teatro da sua mente. Talvez dissesse para si mesmo: “Que homens são esses que não enxergam a riqueza dessa mulher? Por que querem que eu a julgue, se eu quero amá-la? Por que, em vez de olhar para os erros dela, não olham para seus próprios erros?” O silencio inquietante de Jesus deixou os acusadores perplexos, levando-os a diminuir a temperatura da raiva, da tensão, oxigenando a racionalidade deles. Num segundo momento, eles voltaram a perguntar o veredicto do Mestre. Então, finalmente, ele se levantou. Fitou os fariseus nos olhos, como se dissesse: “Matem a mulher! Todavia, antes de apedrejá-la, mudem a base do julgamento, tenham a coragem de ser transparentes em enxergar as suas falhas, erros e contradições”. Esse era o sentido de suas palavras. “Quem não tem pecado atire a primeira pedra”. Os fariseus receberam um choque de lucidez com as palavras de Jesus. Saíram do cárcere das janelas killer e começaram a abrir as janelas light. Deixaram de serem vítimas do instinto de agressividade e passaram a gerenciar suas reações. O homo sapiens prevaleceu sobre o homobios, à racionalidade voltou. O resultado é que eles saíram de cena. Os mais velhos saíram primeiro porque tinham acumulado mais falhas ao longo da vida ou porque eram mais conscientes delas. Jesus olhou para a mulher e fez uma delicada pergunta: “Mulher, onde estão seus acusadores?” O que ele quis dizer com essa pergunta e por que a fez? Em primeiro lugar, ele chamou a adultera de “mulher”, deu-lhe o status mais nobre, o de um ser humano. Ele não perguntou com quantos homens ela dormira. Para o Mestre dos Mestres, a pessoa que erra é mais importante do que seus próprios erros. Aquela mulher não era uma pecadora, mas um ser humano maravilhoso. Em segundo lugar, perguntou: “Onde estão os seus acusadores? Ninguém a acusou?” Ela respondeu: “Ninguém”. Ele reagiu: “Nem eu”. Talvez ele fosse a única pessoa que tivesse condições de julgá-la, mas não o fez. O homem que mais defendeu as mulheres não a julgou, mas compreendeu não a excluiu, mas a abraçou. As sociedades ocidentais são cristãs apenas no nome, pois desrespeitam os princípios fundamentais vividos por Jesus. Um deles é o respeito incondicional pelas mulheres! O homem que mais defendeu as mulheres não parou por aí. Sua ultima frase indica o apogeu da sua humanidade, o patamar mais sublime da solidariedade. Ele disse para a mulher: “Vá e refaça seus caminhos”. Essa frase abala os alicerces da psiquiatria, da psicologia e da filosofia. Jesus tinha todos os motivos para dizer: “De hoje em diante, sua vida me pertence, você deve ser minha discípula”. Os políticos e autoridades usam seu poder para que as pessoas os aplaudam e gravitem em sua órbita. Mas Jesus, apesar do seu descomunal poder sobre a mulher, foi desprendido de qualquer interesse. “Vá e revise a sua historia, cuide-se. Mulher você não me deve nada. Você é livre”! Jesus a despediu, mas ela não foi embora. E por quê? Porque o amou. E, por amá-lo, o seguiu para sempre, inclusive até os pés da cruz, quando ele agonizava. Talvez essa mulher tenha sido Maria Madalena. A base fundamental da liberdade é a capacidade de escolha só é plena quando temos liberdade de escolher o que amamos. Todavia, estamos vivendo em uma sociedade em que não conseguimos sequer amar a nós mesmos. Estamos nos tornando mais um número de cartão de crédito.
Ao chegarem com a mulher diante dele, a multidão ficou perplexa. Destilando ódio, comentaram que ela fora pega em flagrante adultério e perguntou qual era a sentença dele. Se dissesse “Que seja apedrejada”, ele livraria a sua pele, mas destruiria seu projeto transcendental, seu discurso e principalmente seu amor pelo ser humano, em especial pelas mulheres. Se dissesse “Não a matem!”, ele e a mulher seriam imediatamente apedrejados, pois estaria indo contra a tradição daqueles radicais. Se os fariseus tivessem feito a mesma pergunta aos discípulos de Jesus, estes provavelmente teriam dito para matá-la. Assim se livrariam do risco de morrer. Qual foi a primeira resposta do Mestre diante desse grave incidente? “Quem não tem pecado atire a primeira pedra!”, foi à segunda resposta. A primeira foi não dá resposta, foi o silencio. Só o silencio pode conter a sabedoria quando a vida está em risco. Nos primeiros 30 segundos de tensão cometemos os maiores erros de nossas vidas, ferimos quem mais amamos. Por isso, o silencio é a oração dos sábios. Para o Mestre dos Mestres, aquela mulher, ainda que desconhecida, pobre, esfolada, rejeitada publicamente e adultera, era mais importante do que todo o ouro do mundo, tão valiosa como a mais pura das mulheres. Era uma jóia raríssima, que tinha sonhos, expectativas, lágrimas, golpes de ousadia, recuos, de ousadia enfim, uma historia fascinante, tão importante como a de qualquer mulher. Valia a pena correr riscos para resgatá-la. Para o Mestre dos Mestres não havia um padrão para classificar as mulheres. Todas eram igualmente belas, não importando a anatomia do seu corpo, não importando nem mesmo se erravam muito ou pouco. Jesus precisava mudar a mente dos acusadores, mas nunca ninguém conseguiu mudar a mente de linchadores. Queriam vê sangue. Ao optar pelo silencio, Jesus optou por pensar antes de reagir. Ele escrevia na areia, porque escrevia no teatro da sua mente. Talvez dissesse para si mesmo: “Que homens são esses que não enxergam a riqueza dessa mulher? Por que querem que eu a julgue, se eu quero amá-la? Por que, em vez de olhar para os erros dela, não olham para seus próprios erros?” O silencio inquietante de Jesus deixou os acusadores perplexos, levando-os a diminuir a temperatura da raiva, da tensão, oxigenando a racionalidade deles. Num segundo momento, eles voltaram a perguntar o veredicto do Mestre. Então, finalmente, ele se levantou. Fitou os fariseus nos olhos, como se dissesse: “Matem a mulher! Todavia, antes de apedrejá-la, mudem a base do julgamento, tenham a coragem de ser transparentes em enxergar as suas falhas, erros e contradições”. Esse era o sentido de suas palavras. “Quem não tem pecado atire a primeira pedra”. Os fariseus receberam um choque de lucidez com as palavras de Jesus. Saíram do cárcere das janelas killer e começaram a abrir as janelas light. Deixaram de serem vítimas do instinto de agressividade e passaram a gerenciar suas reações. O homo sapiens prevaleceu sobre o homobios, à racionalidade voltou. O resultado é que eles saíram de cena. Os mais velhos saíram primeiro porque tinham acumulado mais falhas ao longo da vida ou porque eram mais conscientes delas. Jesus olhou para a mulher e fez uma delicada pergunta: “Mulher, onde estão seus acusadores?” O que ele quis dizer com essa pergunta e por que a fez? Em primeiro lugar, ele chamou a adultera de “mulher”, deu-lhe o status mais nobre, o de um ser humano. Ele não perguntou com quantos homens ela dormira. Para o Mestre dos Mestres, a pessoa que erra é mais importante do que seus próprios erros. Aquela mulher não era uma pecadora, mas um ser humano maravilhoso. Em segundo lugar, perguntou: “Onde estão os seus acusadores? Ninguém a acusou?” Ela respondeu: “Ninguém”. Ele reagiu: “Nem eu”. Talvez ele fosse a única pessoa que tivesse condições de julgá-la, mas não o fez. O homem que mais defendeu as mulheres não a julgou, mas compreendeu não a excluiu, mas a abraçou. As sociedades ocidentais são cristãs apenas no nome, pois desrespeitam os princípios fundamentais vividos por Jesus. Um deles é o respeito incondicional pelas mulheres! O homem que mais defendeu as mulheres não parou por aí. Sua ultima frase indica o apogeu da sua humanidade, o patamar mais sublime da solidariedade. Ele disse para a mulher: “Vá e refaça seus caminhos”. Essa frase abala os alicerces da psiquiatria, da psicologia e da filosofia. Jesus tinha todos os motivos para dizer: “De hoje em diante, sua vida me pertence, você deve ser minha discípula”. Os políticos e autoridades usam seu poder para que as pessoas os aplaudam e gravitem em sua órbita. Mas Jesus, apesar do seu descomunal poder sobre a mulher, foi desprendido de qualquer interesse. “Vá e revise a sua historia, cuide-se. Mulher você não me deve nada. Você é livre”! Jesus a despediu, mas ela não foi embora. E por quê? Porque o amou. E, por amá-lo, o seguiu para sempre, inclusive até os pés da cruz, quando ele agonizava. Talvez essa mulher tenha sido Maria Madalena. A base fundamental da liberdade é a capacidade de escolha só é plena quando temos liberdade de escolher o que amamos. Todavia, estamos vivendo em uma sociedade em que não conseguimos sequer amar a nós mesmos. Estamos nos tornando mais um número de cartão de crédito.
CONCLUSÃO
No relato bíblico da vida de Cristo “as mulheres nunca são
discriminadas”. Não há nada que respalde a visão cultural e religiosa da
Sua época que via a mulher como inferior. Pelo contrário, “a atitude e a
mensagem de Jesus significaram uma ruptura com a dominante visão mundial”
Jesus
“não identificou as mulheres em harmonia com as normas do sistema patriarcal de
seu tempo nem tomou parte no sistema como era, por definição, repressivo para
as mulheres”. Abertamente, mas sem fanfarra, Jesus proferiu um golpe
mortal na praga da tradição que negava dignidade às mulheres. Através de Seu
exemplo e ensino, Jesus reclamou para Seu novo reino as bênçãos de Sua criação
original, a igualdade dos dois gêneros à vista de Deus.
REFERÊNCIAS
NUNEZ,
Miguel
Ângel: UNIVERSIDADE ADVENTISTA DEL PLATA.
CRISTOLOGIA. ( 3ª Ed., 2007).
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