terça-feira, 4 de novembro de 2014

O JESUS HISTÓRICO - Ninfa Cristina Barbosa



O JESUS HISTÓRICO
Ninfa Cristina Barbosa*
Busca do Jesus Histórico
Há mais de cem anos que acontece uma busca para identificar o Jesus histórico e diferenciar essa pessoa do Cristo da Fé. Na verdade, várias buscas já foram feitas. Todas, exceto a última, rejeitaram totalmente a historicidade do Novo Testamento (NT) e minaram o cristianismo ortodoxo e a apologética cristã.
As buscas pelo Jesus real podem ser divididas em quatro períodos:
1) A primeira busca ou busca “antiga”, 1778-1906; 2) O período “sem busca”, 1906- 1953; 3) A “nova” busca, 1953-1970; e 4) A terceira busca, 1970 (v. Holden, cap. 2).
O Período da Primeira Busca
A busca pelo Jesus histórico partiu da publicação póstuma por Gotthold Lessing do livro [Fragmentos], de Hermann Reimarus. No fragmento “Sobre a intenção de Jesus e seus discípulos”, Reimarus separou o que os apóstolos disseram sobre Jesus do que Jesus realmente disse sobre si.
Essa dicotomia entre o Cristo da fé e o Jesus da História permanece dogma central de grande parte da pesquisa moderna. Ela está baseada no anti-sobrenaturalismo de Baruch Spinosa, no deísmo inglês e na dicotomia de fato/valor de Immanuel Kant.
Em 1835, David Strauss publicou sua obra despida do sobrenatural “The life of Jesus critically examined” (A vida de Jesus examinada criticamente). Sob a influência de David Hume, Strauss descartou a confiabilidade dos elementos históricos e sobrenaturais nos evangelhos, considerando-os “ultrajes” e “mitos”. Isso levou a tentativas posteriores de desmitificar os registros evangélicos.
Albert Schweitzer encerrou esse período em 1906 com seu The quest of the historical (A busca do Jesus histórico). Ele argumentou que a mensagem de Jesus era de natureza escatológica e que a pesquisa supostamente objetiva sobre o homem Jesus havia produzido uma personagem moldada nos próprios preconceitos dos pesquisadores. “Não há nada mais negativo que o resultado do estudo crítico da vida de Jesus”, escreveu Schweitzer. “Ele é uma personagem criada pelo racionalismo, dotado de vida pelo liberalismo e vestido de trajes históricos pela teologia moderna” (Schweitzer, p. 396).
O Período sem Buscas
Schweitzer prejudicou seriamente a confiança da busca pelo histórico e inaugurou um período durante o qual tal pesquisa ficou desacreditada.
Rudolph Bultmann considerava tal obra metodologicamente impossível e teologicamente ilegítima. Em Jesus e a Palavra (1958), ele escreveu:
“Realmente acredito que não podemos saber quase nada com relação à vida e à personalidade de Jesus, já que as primeiras fontes cristãs não demonstram interesse em nenhuma das duas, além de serem fragmentárias e muitas vezes lendárias; e outras fontes sobre Jesus não existem”  (Bultmann, p. 8).
Bultmann indicou a mudança da procura histórica para o encontro existencial. Valendo-se do pensamento de Strauss, Bultmann começou a desmitificar os evangelhos e a reinterpretá-los de forma existencial.
A Nova Busca
Um aluno de Bultmann, Ernst Kasemann, começou a “nova busca” numa palestra de 1953. Ele rejeitou o método de Bultmann como docético, porque Bultmann desconsiderava a humanidade de Jesus. Apesar de manter grande parte das pressuposições da busca anterior, os objetivos de Kasemann eram diferentes. A antiga busca objetivava a descontinuidade entre o Cristo da fé e o Jesus da história em meio à suposta continuidade.
A nova busca preocupava-se com a pessoa de Cristo como a palavra pregada de Deus e sua relação com a história. A obra principal da nova busca é Jesus o f Nazareth [Jesus de Nazaré], de Gunther Bornkamm (1960).
A Terceira Busca
A pesquisa mais recente sobre o Jesus histórico é em grande parte a reação à “nova busca”. Ela é multifacetada, incluindo alguns da tradição radical, uma nova tradição da perspectiva e conservadores.
Na categoria “conservadora” estão I. Howard Marshall, D. F. D. Moule e G. R. Beasley-Murray. Eles rejeitam a ideia de que a descrição do Jesus do NT foi de alguma forma criada por seitas helênicas de salvação. O grupo da nova perspectiva coloca Jesus no contexto do século 1.
Esse grupo inclui E. P. Sanders, Ben F. Meyer, Geza Vermes, Bruce Chilton e James H. Charlesworth. (A tradição radical é exemplificada pelo Seminário Jesus e seu interesse no Evangelho de Tomé e no documento q.) O Seminário Jesus usa muitos dos métodos de Strauss e Bultmann, mas, ao contrário do primeiro, o grupo é otimista sobre a recuperação do indivíduo histórico. Os resultados até hoje, no entanto, renderam teorias bem diferentes, baseadas num pequeno fragmento dos ensinamentos do NT que consideram autêntico.
Avaliação
Suposições falsas sobre método e premissas.
Com a exceção da retomada acadêmica conservadora, todas as buscas basearam-se em premissas falsas e procederam com base em métodos falhos ou questionáveis. A maioria desses métodos são examinados detalhadamente nos artigos citados. As premissas falsas incluem: Anti-sobrenaturalismo. Relatos de milagres e qualquer referência ao sobrenatural são rejeitados imediatamente. Isso é injustificado. Dicotomia de fato/valor. A suposição de Kant de que é possível separar fato de valor é claramente falsa, o que fica evidente na impossibilidade de separar o fato da morte de Cristo de seu valor. Não há significado espiritual no nascimento virginal se ele não for um fato biológico. E não se pode separar o fato da vida de seu valor; um assassino inevitavelmente ataca o valor do indivíduo como ser humano ao tirar a vida da pessoa.
Falsa Separação
As buscas não podem substanciar a disjunção entre o Cristo da fé e o Jesus do fato. Elas supõem, sem provas, que os Evangelhos não são históricos e que não apresentam a pessoa histórica de Jesus.
Negação da Historicidade
No centro das buscas está uma negação da natureza histórica dos evangelhos. Mas sua historicidade foi consolidada mais que a de outros livros.
Má Interpretação de “Mito”
A maioria das buscas não entendeu a natureza do “mito”. Só porque um evento é mais que empírico não significa que é menos que histórico. O milagre da ressurreição, por exemplo, é mais que a ressurreição do corpo de Jesus — mas não é menos que isso. Como C. S. Lewis observou, os que equiparam o NT à mitologia não estudaram bem o NT; tampouco não estudaram bem os mitos. Falsas suposições sobre documentos extra bíblicos.
Na busca radical mais recente há um esforço mal direcionado para adiar a datação do NT e acrescentar os documentos extra bíblicos “q” e o Evangelho de Tomé. Mas está bem estabelecido que há registros do NT anteriores a 70 d.C, enquanto contemporâneos e testemunhas oculares ainda estavam vivos. Além disso, não há prova de “q” ter existido como documento escrito. Não há manuscritos ou citações dele. O Evangelho de Tomé é uma obra de meados do séc. 10, 11, muito recente para ter figurado entre os escritos dos evangelhos.
Cristo da Fé Versus Jesus da História
A origem da diferença entre o “Cristo da fé” e o “Jesus da história” geralmente é remontada a Martin Kahler (1835-1912), mas provavelmente ele não quis dizer com o termo o que a maioria dos críticos acreditam.
Mesmo antes de Kahler, Gotthold Lessing (1729-1781) assentou o fundamento para a separação entre o Cristo da fé e o Jesus da história.
O “fosso”de Lessing - Já em 1778, Lessing considerou a separação entre o histórico e o eterno como “O fosso terrível que não consigo atravessar, por mais frequente e diligentemente que tente chegar ao outro lado” (Lessing, p. 55).
O fosso separava as verdades contingentes da história das verdades necessárias da religião. Era simplesmente impossível atravessá-lo a partir do nosso lado. Assim, Lessing concluiu que, não importando quão prováveis os registros do evangelho sejam considerados, jamais podem servir de base para conhecer verdades eternas.
O fosso de Kant -  Em 1781, Immanuel Kant mencionou no seu Critica da razão pura a separação entre as verdades contingentes da nossa experiência e as verdades necessárias da razão. Assim, ele acreditava ser necessária a destruição de qualquer base filosófica ou científica de crença em Deus. “Portanto, acho necessário”, ele disse, “negar o conhecimento, para dar espaço à/é ” (Kant “Prefácio,” p. 29).
Kant acreditava que é preciso abordar o  âmbito da religião pela fé, que é o âmbito da razão prática, não da razão teórica. Criou um fosso intransponível entre o âmbito objetivo, científico e cognoscível dos fatos e o âmbito incognoscível do valor (moralidade e religião). Essa dicotomia fato/valor está na base da disjunção entre o Cristo da fé e o Jesus da história.
A divisão histórica/historiai de Kahler - O título do livro de Kahler descreve a dicotomia que ele considerava necessária: The socalled historical Jesus and the historie, biblical Christ (1892).
A esse volume é atribuída a origem da distinção entre o Jesus “histórico” (historisch) e o Cristo “historiai” (Geschichtlich). O que Kahler tinha em mente com “histórico”, no entanto, era o Jesus reconstruído da erudição liberal crítica da sua época, não o Jesus real do século 1.
Kahler perguntou:
“Devemos esperar [que os crentes] dependam da autoridade dos eruditos quando a questão se relaciona à fonte da qual retiram a verdade para suas vidas?”
Acrescentou:
“Não consigo confiar nas probabilidades ou numa série instável de detalhes, cuja confiabilidade está sempre mudando” (Kahler, 109,111).
Apesar de Kahler não aceitar uma Bíblia inerrante (sem erros), acreditava que os evangelhos em geral eram confiáveis. Falou de sua “fidelidade relativamente notável”. A confusão de Kahler sobre como considerar os evangelhos levou-o a considerar confiáveis até as “lendas” do evangelho, “até onde seja concebível” (ibid., 79-90,95,141-2). O que “queremos deixar muito claro”, disse Kahler, é “que no final acreditamos em Cristo, não por causa de qualquer autoridade, mas porque ele mesmo desperta tal fé em nós” (ibid., p. 87).
Ele fez a pergunta crítica da igreja da sua época:
Como Jesus Cristo pode ser um objeto real da fé para todos os cristãos se o que e quem ele realmente era só pode ser averiguado por metodologias de pesquisa tão elaboradas que só os eruditos da nossa época são adequados para a tarefa? (v. Soulen,p.98).
O “salto”de Kierkegaard -  O que também preparou o cenário para a disjunção posterior entre o Cristo da fé e o Jesus histórico foi o iconoclasta dinamarquês, Soren Kierkegaard.
Kierkegaard perguntou: “Como algo de natureza histórica pode ser decisivo para a felicidade eterna?” (Concluding unscientific postscripts, p. 86). Portanto, Kierkegaard rebaixou a base histórica do cristianismo.
A história real não era importante comparada à crença “de que em tal ano o Deus apareceu a nós na forma humilde de um servo, que viveu e ensinou na nossa comunidade, e depois morreu” (Philosophical fragments, 130). Apenas um “salto” de fé pode colocar-nos além do histórico e dentro do espiritual.
Cristo Versus Jesus
Rudolph Bultmann fez a disjunção final definitiva e radical entre o Cristo da fé e o Jesus da história.
A visão pode ser resumida assim: A implicação geralmente tirada dessa disjunção é que o histórico tem pouca ou nenhuma importância.
O Cristo histórico: Relevante para a fé; Cristo dos crentes; Cristo dos evangelhos; Fundamento certo; Acessível a todos os cristãos; A significância de Jesus; O Cristo do presente.
O Jesus histórico: Irrelevante para a fé; Jesus dos eruditos; Jesus da história crítica; Fundamento incerto; Inacessível à maioria dos cristãos; A factualidade de Jesus; Jesus do passado espiritual.
Como Kierkegaard argumentou, mesmo se alguém pudesse provar a historicidade dos evangelhos em cada detalhe, isso não o aproximaria necessariamente de Cristo. Por outro lado, se os críticos pudessem refutar a historicidade dos evangelhos, atendo-se ao homem  que viveu em quem as pessoas acreditavam que Deus habitava, isso não destruiria os fundamentos da fé verdadeira.
Avaliação
Toda a dicotomia entre o Jesus da história e o Cristo da fé é baseada em suposições altamente duvidosas. A primeira lida com a historicidade dos documentos do  NT.
O que é necessário para salvação.
Esse conceito de que a crença nos fatos do evangelho é historicamente irrelevante é contrário à afirmação do NT do que é necessário para salvação. O apóstolo Paulo apresentou como essencial a crença de que Jesus morreu e ressuscitou corporalmente da sepultura.
Ele escreveu:
“E, se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm. Mais que isso, seremos considerados falsas testemunhas de Deus, pois contra ele testemunhamos que ressuscitou a Cristo dentre os mortos. Mas se de fato os mortos não ressuscitam, ele também não ressuscitou a Cristo. Pois, se os mortos não ressuscitam, é inútil a  fé que vocês tem, e ainda estão em seus pecados. Neste caso, também os que dormiram em Cristo estão perdidos. Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de compaixão” (1Co. 15.14-19).
A Preocupação dos Autores.
Essa indiferença quanto à historicidade também não é compartilhada pelos próprios autores do NT, que parecem estar preocupados com os detalhes de um registro preciso, não um mito vago. Na verdade Lucas nos conta suas técnicas de pesquisa e seu objetivo como historiador:
“Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra, Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo, e decidi escrever-te um relato ordenado, o excelentíssimo Teófilo, para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas” (Lc 1.1-4).
Lucas expressa esse interesse histórico ao relacionar a história a pessoas e eventos que são parte do registro público da história,  tais como Herodes, o Grande (1.5), César Augusto (2.1), Quirino (2.2), Pilatos (3.1), e muitos outros ao longo de Lucas e Atos. Note seu detalhismo histórico em datar o anúncio que João Batista fez de Cristo:
“No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia; Herodes, tetrarca da Galiléia; seu irmão Filipe, tetrarca da Ituréia e Traconites; Lisánias, Tetrarca de Abilene; Anás e Caifás exerciam o sumo sacerdócio”  (Lc 3.1,2a).
Há uma suposição injustificada de que o NT, e principalmente os evangelhos, carecem de apoio histórico adequado. Isso simplesmente não é verdade.
Uma Falsa Dicotomia
A separação entre o Jesus e o Cristo históricos é baseada na dicotomia falsa de fato e fé ou de fato e valor. O significado histórico de Cristo não pode ser separado de sua historicidade. Se ele não tivesse vivido, ensinado, morrido e ressuscitado dos mortos como o NT afirma, então ele não teria significância salvadora hoje. Mesmo depois de um século de uso, a distinção continua sendo ambígua e varia em significado de autor a autor.
Kahler a usou para defender o “pietismo crítico”.  Para Bultmann, significava o estilo de existencialismo de Martin Heidegger. John Meyer observa que “O Cristo da fé exaltado por Bultmann parece suspeitosamente um mito gnóstico ou um arquétipo de Jung”.
Mais próximo do outro extremo do espectro, eruditos como Paul Althaus (1888-1966), usaram a distinção de Kahler para defender uma abordagem mais conservadora da historicidade de Jesus. Kahler não teria aceito a concepção de Bultmann nem a de Althaus. Albert Schweitzer (1875-1965) está mais ciente do que Kahler quis dizer. Ele denuncia duramente os que, em nome dessa distinção, fizeram o Cristo histórico responsável por todo tipo de tendência, desde a destruição da cultura antiga até o progresso das realizações modernas. Portanto, a distinção entre histórico e historiai tornou-se uma expressão capciosa e portadora de todo tipo de bagagem ideológica.
Para Bornkamm, ninguém mais está em condições de escrever uma vida de Jesus. Hoje ela é o resultado surpreendente, indiscutível, de uma pesquisa que, durante quase 200 anos, empenhou um esforço extraordinário e de resultados positivos, no sentido de reconstruir e apresentar a vida do Jesus histórico, sem os “retoques” do dogma e da doutrina. No final dessa investigação sobre a vida de Jesus está o reconhecimento do próprio fracasso. Realmente, os diferentes quadros das inúmeras “Vidas de Jesus”, não são animadores, pois neles contemplamos ora o Mestre que nos fala de Deus, da virtude e da imortalidade; ora o gênio religioso do romantismo; ora o ético na linha de Kant; e, outras vezes ainda, o pioneiro das ideias sociais.
A verdade é que não possuímos uma única sentença de Jesus nem uma única história de Jesus que não inclua, ao mesmo tempo – por mais intangível e autêntica que seja -, a profissão de fé da comunidade crente ou que, pelo menos, nela não esteja baseada.
A fé autêntica não depende dos avanços da história. Mas aquele que aceitou suas interrogações porque se preocupa em compreender a história, dificilmente poderá ter a consciência em paz, tentando, a toda hora, refugiar-se dos problemas da pesquisa e de seus múltiplos resultados contraditórios no aprisco supostamente seguro das tradições eclesiásticas.
Não obstante, devemos ter o maior interesse em sair desse dilema. Faríamos bem em esclarecer a questão da compreensão da história e da figura de Jesus que se manifesta nos evangelhos, antes das questões históricas a respeito da reconstrução de um período de história acontecido dessa forma, e não da outra.
Jesus Cristo – exatamente o rabi de Nazaré cuja história terrena começou na Galiléia e terminou na cruz em Jerusalém e é, não obstante, também o ressuscitado, o Salvador, o realizador dos decretos divinos. Eis aí nossa história!
Fontes:
Geisler, Norman. Enciclopédia Apologética – Resposta aos Críticos da Fé, Ed. Vida. 1999 pgs:. 448, 449; Bornkamm, Gunther.-  Jesus de Nazaré, Ed. Teológica. 2005. Cap. 1.


















·         Estudante de Teologia do Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, para a cadeira de Evangelhos – Prof. e Pr. Jonas.

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